quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A entrevista - 6º ano

A entrevista


                Foi mais ou menos assim que aconteceu a reportagem de Mariovaldo Lourenço com seu Durvalino da Silva, lá pras bandas de Ponte Pequena:
                ¾ Bom dia, seu Durvalino!
                ¾ Dia, seu moço.
                ¾ Estou aqui para fazer uma reportagem sobre a sua vida de lavrador, pode ser?
                ¾ Uai, sô! Se eu num tivé que pagá nada...
                ¾ Não, não. Pode ficar tranqüilo que é de graça.
                ¾ Qué dizê que vô saí no jornar da cidade?
                ¾ Vai, sim senhor, mas primeiro terá que responder algumas perguntas que vou lhe fazer, certo?
                ¾ Óia, seu moço, é de graça mesmo?
                ¾ É, seu Durvalino, é de graça. Posso começar?
¾ Se fô de graça mesmo, pode.
¾ Onde o senhor nasceu?
¾ Nasci aqui mesmo em Ponte Pequena, sim senhô.
¾ Estado civil?
¾ Vô dizê umas coisas pro senhô, seu moço; esse negócio de política, eu não entendo não.
¾ Não é política não, seu Durvalino. Eu quero saber se o senhor é casado.
¾ Ah, bão! Pra lhe falá a verdade, sou, sim senhô, de paper passado e tudo. Tá lá a Conceição que num me deixa menti.
¾ Não é preciso comprovar, seu Durvalino, sua palavra basta. O senhor possui prole?
¾ Bão, seu moço, prole das grandes eu num possuo não. Se o senhô oiá dereito, pode vê que meu sítio é dos pequenininhos, tá mais pra prolezinha mesmo, sim senhô.
¾ Desculpe, seu Durvalino, eu vou ser mais claro. O senhor possui filhos?
¾ Ah! Prole é fio?
¾ É, seu Durvalino.
¾ Antão eu possuo, sim senhô.
¾ Quantos?
¾ Óia, seu moço, eu num sô muito bão das aritimética, não senhô. Mas tenho um punhado, sim senhô.
                ¾ Certo, mas eu preciso saber o número exato de filhos. O senhor me diga os nomes, que eu faço a soma, tá bem?
                ¾ Tá bão, sim senhô. Mas óia que é guri que num acaba mais!
                ¾ Não tem importância, seu Durvalino. Pode dizer.
                ¾ Sim senhô, seu moço. Bão, de fio hômi, eu tenho o Valdi, o Valdemá, o Valdiano, o Valdo, o Vantuí e o Valenciano que a Conceição pariu o meis passado. E de fia muié, eu tenho a Valdirene, a Valdivina, a Valdiciana, a Valquíria, a Valéria, a Valmeire e a Gertrudes, sim senhô.
                ¾ Puxa vida, treze filhos! Mas só por curiosidade, seu Durvalino, por que a Gertrudes tem nome totalmente diferente das demais?
                ¾ É que a Gertrudes é de criação, sim senhô. E óia que ela tá veia e ainda sai muito leite das suas teta. Óia o Valdemá tirando leite dela lá!
¾ Quer dizer que a Gertrudes é aquela vaquinha ali?
¾ É, sim senhô. Nóis trata ela como se fosse da famia.
¾ Então na verdade são doze filhos. O senhor é um herói, hein, seu Durvalino?
¾ Sô não, seu moço. Eu sô hômi mesmo.
¾ Eu tô vendo, eu tô vendo. Como é que o senhor faz para sustentar tanta gente assim?
¾ Eu pranto, sim senhô. Nóis cóie tudo que a terra dá. Na mesa num farta nada. E ainda tem a Gertrudes pra garanti os leite das criança, sim senhô.
¾ E o senhor se sente um homem feliz aqui no sítio?
¾ Pra falá a verdade, seu moço, sinto, sim senhô. Num farta nada, tenho minha terrinha, minha muié, meus fio, minha Gertrudes. E óia que o Valdemá inda tá tirando leite dela, eu num falei pro senhô? Eta vaquinha das boa, sô! O senhô num qué prová um tiquinho do leite dela?
¾ Não obrigado, seu Durvalino. Agora, pra terminar, vamos tirar uma foto da família reunida, que é pra sair amanhã cedo no jornal, certo?
¾ Certo, sim senhô, seu moço! Ô Conceição, ô Conceição! Vai passá prefume e chama toda a gurizada, que nóis vai tirá fotografia!
¾ Está todo mundo aí, seu Durvalino?
¾ Tá, sim senhô, seu moço.
¾ Ótimo, então lá vai!
¾ Peraí! Peraí, seu moço. Tá fartando gente! Tá fartando gente!
¾ Está não, seu Durvalino. Eu contei, está todo mundo aí.
¾ Óia, seu moço, e o senhô acha que a Gertrudes ia ficá de fora! De jeito manera, sim senhô! ( Alexandre Azevedo. Que azar, Godofredo! São Paulo, Atual, 1989).


Questões:

1. Qual é o assunto central deste texto?

2. Tendo com referência as falas de seu Durvalino e Mariovaldo, explique a diferença entre o  modo de falar de cada um deles.

3. Quem são os personagens do texto?

4. Por quantos parágrafos o texto é formado?

5. Por que esta história é engraçada? Comente.

6. Re-escreva os parágrafos 3,º 5º, 7º , 9º e 11º de modo a prevalecer a norma padrão da lingua portuguesa.

7. A maneira de seu Durvalino falar é considerada errada? Explique.

8. Pesquise em jornais, revistas, panfletos, sites direcionados ou em outras fontes que julgar necessárias exemplos de variação linguística, podendo ser regional, histórica, cultural, padrão ou  social.
Obs. Ao responder o exercício de número 8, não se esqueça de citar a fonte consultada.
As perguntas e respostas devem ser copiadas no caderno.



  

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